sexta-feira, 31 de julho de 2009

O incrível caso dos modelos que encolheram


  • O incrível caso dos modelos que encolheram


Enquanto todo mundo olhava espantado para a magreza exagerada das mulheres nas passarelas, os homens afinavam.
Por Guy Trebay, The New York Times



Os modelos Sascha Kooienga e Artem Emelianov: representantes da (estreita) silhueta masculina do momento nas passarelas. Dê o crédito a Hedi Slimane ou o culpe. O tipo de homem que Slimane promoveu quando chegou a bordo da Dior Homme alguns anos atrás (desde então ele já saiu de lá) era magro feito um palito; as roupas que ele desenhou eram tão esbeltas quanto. Os efeitos de sua criação na indústria de vestuário masculino foram radicais e surpreendentemente persuasivos. Em algumas temporadas, o corte seco dos ternos da Dior Homme fez todos os outros designs parecerem quadrados e ultrapassados, e os estilistas de todos os lugares começaram a reduzir as silhuetas.
Então uma coisa engraçada aconteceu. Os modelos também diminuíram. Enquanto o ideal masculino de um tempo tão recente quanto o ano 2000 era um musculoso de mais de 1,80 metro com abdome tanquinho, o homem do momento é um garoto, um espectro ou um raquítico mal alimentado.
Em nenhum lugar isso ficou mais claro do que nos últimos desfiles masculinos em Milão e Paris, onde mesmo aqueles que já se acostumaram ao novo visual ficaram boquiabertos com a enorme quantidade de rapazes de peito escavado, bochechas chupadas e aparência de desnutridos. O fato de a tendência seguir a caravana da moda para Nova York não surpreendeu tanto.
Mas não foi há pouco tempo que a indústria se armou contra a magreza de modelos? Pouco mais de um ano atrás, na Espanha, estilistas foram obrigados a basear a escolha de modelos levando em conta um índice de massa corporal saudável; médicos acompanharam os castings na Itália; Diane von Furstenberg, presidente do Conselho dos Estilistas da América, e Anna Wintour, editora da Vogue, organizaram uma conferência para debater a questão da imagem corporal pouco saudável e as desordens alimentares entre modelos. Modelos, no caso, mulheres, e pode-se dizer com segurança que elas permanecem com aparência tão frágil quanto sempre tiveram. Mas algo aconteceu enquanto ninguém estava olhando. Alguém encolheu os homens.
'Magro, magro, magro', disse Dave Fothergill, diretor da agência do momento, a Red Model Management. 'Todo mundo está encolhendo.'
Isso estava muito claro nos castings de modelos para os desfiles de Nova York de Duckie Brown, Thom Browne, Patrik Ervell, Robert Geller e Marc by Marc Jacobs, em que modelos como Stas Svetlichnyy, da Rússia, representam o novo padrão. O peso de Svetlichnyy, de acordo com ele, é cerca de 66 quilos. Ele tem 1,83 metro de altura e 71 centímetros de cintura.
'Estilistas gostam de homem magro', disse ele nos bastidores do desfile de Duckie Brown. 'Fica bem nas roupas e isso é a coisa mais importante. Simplesmente agora é desse jeito.'
Mesmo em Milão no mês passado, em desfiles como Dolce & Gabbana e Dsquared, em que as escolhas tradicionalmente vão para tipos fortões, os modelos eram mais esbeltos e menos musculosos, mais longilíneos. Tão impressionante quanto, o look-book da Dolce & Gabbana para a primavera-verão 2008 (um catálogo da coleção completa) apresentou homens que parecem nunca ter visto o interior de uma academia de ginástica, e não os modelos que eram tradicionalmente favorecidos - estrelas da indústria como Chad White e Tyson Ballou, que têm aparência de estrela de cinema e físico de astro pornô.
'O visual atual é totalmente diferente do que era moda quando eu comecei no ramo, oito anos atrás', disse Ballou, durante uma sessão de fotos no Milk Studios em Manhattan. Em vários castings, que tendem a ser dominados por um punhado de gente, o estilo de corpo que agora domina é o que Charles Atlas (famoso fisiculturista, morto em 1972) passou a carreira tentando melhorar.


'A primeira coisa que eu fiz quando me mudei para Nova York foi começar imediatamente a freqüentar a academia', disse o estilista John Bartlett. Isso foi nos longínquos anos 1980. Mas a idéia de aumentar os músculos agora parece retrô quando músicos e árbitros do gosto como Devendra Banhart se gabam por passar fome para parecer bem nas roupas.
'A visão mudou', disse Bartlett. 'As roupas agora estão cada vez mais apertadas. Os rapazes estão cada vez mais jovens. Todo mundo é influenciado pelo que a Europa mostra.'
O que a Europa (o que significa dizer estilistas influentes como Miuccia Prada e Raf Simons na Jil Sander) mostra são homens altos como Tom Brady, mas que usam terno tamanho 48.
'Há estilistas que guiam o caminho', disse James Scully, um experiente agente de castings conhecido pelas inúmeras descobertas que fez quando trabalhou na Gucci com Tom Ford. 'Todos olham para Miuccia Prada em busca de um padrão do mesmo jeito que costumavam olhar para Hedi Slimane. Depois que a hedi-slimanização começou, tudo que qualquer um queria escolher era o garoto esquelético que parecia ter tido areia chutada no rosto. Os grandes e maravilhosos modelos simplesmente pararam de ir à Europa. Eles sabiam que nunca seriam escolhidos.'


Os fortões que dominavam a moda masculina até 2000 perdem espaço para meninos cada vez mais magros (acima, em desfile de Herchcovitch):
o visual malhado está em
baixa nas passarelas

O incrível caso dos modelos que encolheram

Por Guy Trebay, The New York Times

Para começar, eles sabiam que jamais caberiam nas amostras dos estilistas. 'Quando comecei no negócio das revistas, em 1994, o tamanho de amostra era um 50 italiano [numeração usada para ternos. É a mesma no Brasil]', disse Long Nguyen, da revista Flaunt.
'Aquele era um tamanho apropriado para um homem de 1,83 metro', disse Nguyen. Mas, apenas seis anos depois - coincidentemente, mais ou menos na mesma época em que Slimane deixou o emprego de estilista da linha masculina da YSL e foi para a Dior Homme -, o tamanho típico de amostras diminuiu para 48. Agora é 46.
'Neste momento, você pode economizar dinheiro e ir direto para o setor dos garotos', disse Nguyen de seu lugar na primeira fila do desfile de Benjamin Cho, que foi apertado como sempre, com uma seleção de varapaus em jaquetas axadrezadas e jeans justos, os mesmos tipos que enchem clubes do Brooklyn como o Sugarland. 'Não tenho muita certeza se os estilistas estão fazendo roupas menores ou se as pessoas são menores agora', disse Nguyen.
De acordo com o estudo realizado pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças, os americanos estão mais altos e mais pesados hoje do que há 40 anos. O relatório, publicado em 2002, revelou que a altura média dos homens adultos aumentou de pouco mais de 1,72 metro em 1960 para 1,76 metro em 2002. O peso médio do mesmo homem adulto cresceu dramaticamente, de 75 para 86 quilos.
Hoje, um modelo que pesasse 86 quilos, não importa quão bonito fosse, seria afastado pela maioria das agências ou mandado a um spa.
Longe de inspirar um dilúvio de indignação, como aconteceu depois que a mídia internacional anunciou a morte de duas jovens modelos por transtornos alimentares, a tendência favorecendo homens muito magros tem sido aceita sem questionamento.
'Pessoalmente, acho que é o consumidor que está fazendo isso, e a moda só está respondendo', disse Kelly Cutrone, a fundadora da People's Revolution, uma companhia de marketing e produção de moda. 'Ninguém mais quer uma bela mulher ou um belo homem.'
Em termos de imagem, a preferência atual é pela beleza que não está completamente desenvolvida. 'As pessoas temem parecer ter mais de 21 anos ou fazer qualquer declaração sobre o que significa ser adulto', disse Cutrone.
George Brown, booker da Red Model Management, afirmou: 'Quando eu atendo a ligação de um garoto que fala 'Eu tenho 1,84 metro e estou falando do Kansas', pergunto imediatamente 'Quanto você pesa?'. Se ele disser 85 ou 86 quilos, eu sei que não poderemos usá-lo. Nossos rapazes pesam 70 quilos com essa altura.'
As cinturas deles, como a de Svetlichnyy, medem de 71 a 74 centímetros. O ideal é que tenham pescoços longos, coxas finas, ombros estreitos e tórax com não mais de 90 centímetros de circunferência, disse Brown. 'É pedido do cliente', acrescentou. 'Esse é o tamanho exato que os estilistas de primeira linha e os editoriais de ponta procuram.'
Para o desfile de Patrik Ervell, o casting pedia new faces e homens cujos corpos fossem adaptados a uma silhueta de espantalho. 'Tivemos que medir as coxas deles', disse Brown.
Para modelos como Demián Tkach, um argentino de 26 anos que foi descoberto recentemente pelo fotógrafo Bruce Weber, o aperto da fita métrica pode acabar com a carreira.
Tkach disse que quando chegou do México, onde esteve trabalhando, 'minha agência pediu para perder um pouco de músculos. Perdi para ajudá-los, porque entendo que os estilistas não estão mais à procura de uma imagem masculina. Eles buscam algum tipo de androginia'.
'Antes os homens tinham que ser altos, fortes e musculosos. Hoje esse biótipo só serve para modelos comerciais. Na passarela eles têm que ser longilíneos. O peitoral não pode passar de 1 metro ou as roupas não servem. Foi a própria mudança da moda que trouxe isso: coxas grossas não ficam bem em uma calça seca de boca estreita. A idade dos modelos também mudou. Hoje a maioria tem menos de 20 anos, quando se é naturalmente mais magro. Talvez essa mudança crie homens anoréxicos. E não só no mundo da moda.'
Mônica Monteiro, dona da MM Management e uma das responsáveis pelo
lançamento e pela ascensão de Gisele Bündchen


'Nunca pensei em ser modelo. Achei que era preciso ser do tipo forte, e sempre fui magro. Quando me procuraram em um jogo de futebol com essa proposta, pensei que fosse mentira. E ainda tive que ficar ouvindo as piadinhas dos meus amigos que estavam ao lado.' Gabriel Closs, 18 anos, 1,88 metro e 74 quilos
(Kariny Grativol)

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